Este foi o meu livro de mesa-de-cabeceira dos últimos três meses. Agora tenho pena de ter deixado arrastar tanto tempo ao longo da leitura. Não digo que "Ana Karenina" foi uma má experiência, bem pelo contrário. As personagens conseguiam irritar-me, mas através delas o leitor pode tomar conhecimento de pontos de vista diferentes, o que é interessante. As cenas focadas em discussões de teor filosófico (e político, moral, religioso, etc.) tornaram a leitura mais lenta, mas, ao mesmo tempo, mais completa para percebermos o que estava em debate na época.
"Ana Karenina" é um grande livro em termos de realismo. Consegue conter uma boa crítica aos costumes da alta-sociedade da Rússia Imperial; a diferença entre a província e a cidade; e posso partilhar que também o considerei um livro sobre a busca da felicidade. Aquela a que aspiramos não marcará as nossas escolhas de vida? E a forma como procedemos para a obter não terá consequências?
Ana Karenina é esposa de Aleixo Karenine, um funcionário de altas honras do governo, e mãe de um menino. Bela e afável, é acarinhada pela sociedade, até iniciar um romance com o Conde Wronsky, jovem militar e "bon vivant", o que origina um escândalo previsível, tornando-a "indesejada" nos salões dos restantes. Com Wronsky é feliz, mas ao mesmo tempo, triste e culpada. Magoou o marido, mas ao afastar-se do filho também se magoa.
Para além da protagonista, ao longo do livro acompanhamos a busca de Levine pela sua felicidade, uma personagem que parece contrabalançar a descida de Ana. Proprietário de terras, prefere a estadia na província, longe dos preconceitos da sociedade, e detém-se em reflexões sobre as diferenças entre camponeses e aristocratas, a religião, a morte, a necessidade de escolaridade, etc. É apaixonado por Kitty, irmã de Dolly, a cunhada de Ana.
Esta última personagem assemelha-se ao arquétipo de uma esposa modelo. Foi - sempre, provavelmente - traída pelo marido, Oblonsky, mas evita ser levada pelas emoções e toma atitudes ponderadas, em prol dos filhos, principalmente. Como "uma boa esposa e mãe", são eles a sua prioridade como mulher. Já Ana, apesar da culpa que a assola pela relação extra-conjugal, é egoísta e emotiva, o que leva à decadência do seu "bom nome".
Ainda sobre as mulheres, achei curioso como são preferidas como seres ternos e religiosos, e assustador como é descrita a sua condição. Dividem-se entre a família e o que pretendem, tal como Kitty se subjugou à mãe num primeiro momento, por a princesa não ver Levine com bons olhos; e mesmo depois de casadas continuam sujeitas às condições do marido. Aliás, os próprios filhos pertencem ao marido - sejam dele ou do amante - o que torna as decisões da protagonista mais duras.
Por outro lado, dos homens espera-se poder social, e gostei da forma como é
traduzida a vergonha de um homem que é traído e tenta manter as
aparências para bem da sua posição.
No geral, as personagens perturbaram-me. Há as que anseiam pela riqueza e ascendem a postos cujo objectivo é desconhecido - os chamados "tachos" dos dias de hoje - e os que preferem jogo e "liberdade" a um casamento; e o que se designam como pessoas de "fé" e carácter e não temem intrometer-se na vida dos "amigos" com as suas "boas intenções" (se a Condessa Lídia se tivesse mantido longe de Karenine poderia o destino de Ana ter sido outro?).
Como retrato social, gostei de "Ana Karenina",para perceber não só ritos e costumes da época, como as ideias que eram discutidas. No início, parecia-me que as classes mais baixas eram vistas de forma demasiado simplória, mas não serão os seus comentários uma forma de ridicularizar a alta? Os camponeses chegam a ser invejados, por parecerem tão felizes mesmo durante o trabalho - sem o peso da "sociedade", talvez.
Apesar de ser um clássico - mais, um clássico russo! - o estilo de escrita mostrou-se mais simples do que esperava, e gostei de o ler.
Já repararam como sabe bem ler algo que sabemos que tem qualidade? Até pode não ser um page turner; até podemos dar por nós desejosos de o acabar; mas sabe bem saber que sempre que lemos uma passagem, de algum modo, estamos a aprender. Gosto disso.
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| Sinopse |
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Boas leituras!









