terça-feira, 25 de novembro de 2014

"O Carteiro de Pablo Neruda", Antonio Skármeta


Li este livrinho em horas, de tão entusiasmada que fiquei. Não estava à espera de gostar tanto. Centra-se na relação de amizade entre o carteiro da Isla Negra, Mario, um rapazote, e o único habitante da ilha que recebe correspondência, Pablo Neruda, o poeta.
Amizade que se forma quando o rapaz se apaixona por Beatriz e deseja escrever-lhe poesia para poder aproximar-se dela – já que a mãe da miúda é uma megera. A amizade que Mario e Pablo encetam através dos seus esforços para conquistar Beatriz é realmente ternurenta.
Antes de prosseguir, deixem-me avisar: à boa moda dos livros de escritores latino-americanos, nesta obra qualquer acontecimento toma ares de lenda! E isso é delicioso…
A história é baseada em factos verídicos, e torna-se angustiante quando a política mete a patinha e somos levados até àquele final. Gostava de ter sabido o que aconteceu a Mario na realidade - ou talvez prefira não saber.
Só tenho a apontar uma coisa, que nem deve ser erro do Skármeta ou do tradutor, mas das letras gigantes da edição que li: há frases que tão longas que se estendem pela página e me perdi.
À parte isso, e voltando ao que interessa, só tenho que recomendar O Carteiro de Pablo Neruda. É especial. Relata momentos especiais, como quando lemos/ouvimos a gravação que Mario envia a Pablo, sediado em Paris e com tantas saudades da ilha que lhe envia um gravador para que registe o que o faz sentir em casa. É um livro com uma história de amor e amizade e, no fundo, pareceu-me um hino ao próprio Mario.

Para recomendar, sem dúvida.
 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

"Em Busca do Carneiro Selvagem", Haruki Murakami


Em Busca do Carneiro Selvagem, de Haruki Murakami, foi um dos primeiros livros do escritor. Sou fã e, como todos os fãs de Murakami, é quase impossível falar apenas de um livro. O escritor japonês tende a inserir sempre certos elementos nos seus livros e isso é fantástico! Eu e a S Pinelli, já falámos disso no Delícias à Lareira, caso estejam interessados em dar uma olhadela. Basta um clique.
 
Foquemo-nos, então, apenas neste livro, por agora. Sendo um dos primeiros, a informação é nos dada com mais detalhe; é tudo mais explícito, mais palpável. No entanto, senti-me um pouco perdida enquanto lia o livro. Parecia que nada fazia sentido. Porque iria uma organização embirrar com uma foto de uma paisagem com carneiros? E o que tem de tão especial o carneiro com um estrela no dorso? E porque foi a tal foto enviado pelo Rato, o amigo de infância do narrador/protagonista?
No fundo, tal como em “Moby Dick”, de Herman Melville, é a busca por um animal especial que vai dar o mote à acção. Será também a busca do protagonista por si próprio, talvez?
E no fim, o que fica?
Leiam o livro e depois expliquem-me também as vossas teorias…
 
 
Em relação aos elementos “murakamianos, apenas o narrador foge à regra. O protagonista causa alguma estranheza. Apesar de se caracterizar a si próprio como uma pessoa desinteressante e aborrecida, consegue ter uma visão aparentemente irónica do que a rodeia. Também se divorcia da mulher, o que escapa aos típicos protagonistas deste escritor. Normalmente é o pai que se divorcia e que sofre com a traição da mulher.
Os restantes elementos, ou parte dos que identificamos, estão lá:
- ouve-se música jazz;
- o narrador faz-se acompanhar por um livro. Sendo este um romance detectivesco, não será de estranhar que esteja a ler “As Aventuras de Sherlock Holmes”;
- uma das personagens tem problemas de relacionamento com o próprio pai, sentindo-se humilhada e rebaixada por ele, um pouco à semelhança de “Kafka à Beira Mar” e “1Q84”;
- há uma namorada com uma personalidade única e um dom peculiar – uma personagem amorosa, deixem-me comentar;
- fala-se sobre suicídio. Este também é um tema recorrente do autor, o que leva à teoria de, em certo ponto da sua vida, terá sofrido com a perda de um amigo que suicidou. Já em “Norwegian Wood” se foca nisso;
- existe um Líder Supremo, que está a morrer. Lembrei-me logo do Líder da seita em “1q84” e de Jonny Walker de “Kafka à Beira Mar”;
- existe um gato! Mas só a meio da acção é que recebe nome, sequer;
- também se fala sobre o cristianismo, algures;
- personagens desaparecem e reaparecem mudadas – “claro!”, oiço os fãs exclamar;
- uma “entidade” pretende mudar o mundo, um bocadinho à semelhança do Povo Pequeno de “1q84”;
- a sensação de irrealidade e a referência a um mundo paralelo – a que o protagonista apelida de “mundo dos vermes”, onde as “vacas procuram tenazes” – permeia o livro. Não terá o protagonista entrado para uma outra realidade?
Sobre este último ponto, que tanto me fascina, destaco uma passagem sobre o reflexo do protagonista no espelho que ilustra este “elemento”. É deliciosa! Saquem dos vossos volumes e naveguem até à pag. 336…
 
De “Em Busca do Carneiro Selvagem”, não posso dizer que é o meu preferido do autor, até porque fica um tanto aquém de “Kafka à Beira Mar” ou da trilogia “1q84”. No entanto, acho que é sempre positivo lermos as primeiras obras de um escritor de que gostamos e poder observar a sua evolução. E foi mais uma vez uma boa experiência de leitura surreal. Recomendo-o!
E vocês, caros seguidores, já o leram? O que acharam?
Boas leituras!

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Acerca do infame artigo do sr. José António Saraiva ou Pelos vistos ainda temos muito sutiã que queimar

Encontrei um comentário a este artigo enquanto navegava entre blogues numa pausa. A autora de um blogue publicou um excerto do dito texto, que comecei a ler como se de um artigo irónico se tratasse. Tenho vivido numa toca nestes meses - os russos bem nos podem sobrevoar que só sei disso 4 dias depois - pelo que não me apercebi logo que estava a ler um artigo de opinião publicado no jornal Sol... 
Quando li o artigo na íntegra fiquei apática. Nem raiva consegui sentir. Apenas tristeza. É tão triste que haja alguém que ainda pense assim, principalmente tendo esse  “alguém” acesso a um órgão de comunicação social!
E mais! Ser o próprio director!
É triste. E ridículo.
No fundo, o sr. Saraiva faz uma “análise social” a uma qualquer crise familiar dos dias de hoje, apontando a emancipação feminina como a causa disso. Como se divórcio, a toxicodependência, o suicídio e o diabo a quatro fossem consequências de as mulheres saírem de casa para trabalhar! E chegarem a casa “estafadas”, e resmungarem com os maridos e não darem atenção aos filhos, que coitadinhos “têm de ir” para a escola, porque a mãe já não fica em casa com eles, e no meio daquilo, elas querem é ficar a falar com os colegas de trabalho até às tantas e cometer adultério. Tudo isto é, segundo o “sôtor”, culpa do movimento feminista.
Antes de mais, acho que o que este senhor escreveu está desfasado da realidade. Devia ter lido uns estudos, ou no mínimo consultado a Wikipédia primeiro, ou ter falado com algumas pessoas da idade dele para perceber que isso da mulher sair de casa para trabalhar já não é novo. Ou sou eu que vivo noutro mundo, ou o sr. vive dentro de uma bolha, como acontece a tanta gente que nasce em berço de ouro.
Ou sou eu que sou um bicho raro, descendente de uma longa linhagem de mulheres que também se esfalfavam a trabalhar para por o pão na mesa. Fosse na agricultura ou como operárias, ou até a costurar roupa de outros, essas mulheres também trabalhavam, e não ficavam em casa a tratar só de tarefas domésticas e dos filhos. Os filhos, esses, aliás, iam sendo criados por irmãos mais velhos ou outras miudinhas, e assim que largassem fraldas também iam trabalhar.

   "As Respigadoras", J. F. Millet, sec. XIX

Não era qualquer franja da sociedade que se podia dar ao luxo de manter a mulher em casa. E muitas vezes, tal como hoje acontece, se ela estava em casa, era porque o marido não a deixava sair de lá – muitas vezes tal é acompanhado de violência física e psicológica. Violência!!!
Por isso, em primeiro lugar não percebo porque é que o “sôtor” associou que a mulher só saiu de casa para trabalhar a partir do movimento feminista e da emancipação feminina quando há séculos que tal acontece…
Em segundo lugar, a forma incomodada como apresenta o feminismo cheira a mofo. Queimaram-se sutiãs e cortou-se o cabelo? Também ouvi dizer que houve sufragistas quem apresentaram o buço à laia de bigode com orgulho. No entanto, cá para mim, o movimento – ou movimentos - não tinham o objctivo de transformar a mulher em homem, como o Saraiva refere algures. Tinham como objectivo elevar a mulher à categoria digna de “ser humano”, dar-lhe direitos e oportunidades equalitárias.


Acho que este sr. devia ter estudado melhor o tema, ao invés de dar apenas ouvidos ao pai. Meia população portuguesa ficou com a ideia de que o seu progenitor, apesar do seu bom gosto literário, e de, “até” gostar de Lídia Jorge, feminista, ser o chefe de família lá de casa e assim é que Deus manda. Porque, pelos vistos, os homens só seguem o discernimento do próprio pai, segundo a seguinte passagem do artigo: 

"As mulheres chegam a casa estafadas ao fim do dia de trabalho, não tendo paciência para os filhos nem para fazer nada. Muitos maridos protestam – e elas reclamam (justamente) com eles por não ajudarem. Só que os homens resistem, pois nunca viram os seus pais dividir as tarefas caseiras."

Então mas os homens não pensam por si? Regem-se apenas pelo que o pai faz? E os homens que cozinham em casa, e os que ajudam a mantê-la limpa, e que mudam fraldas? São uns “desviados”?
Francamente…
Como se não bastasse todas esta baboseira, o “sôtor” identifica uma passagem de uma entrevista a Lídia Jorge, em que a escritora relembra com nostalgia a infância, com a nostalgia por aquele “paraíso” perdido, onde o marido é rei e senhor da casa, e a mulher está lá, a deixar o cenário limpo e a tratar dos gaiatos. Lembram-se daquela imagem que figura nos livros de História, quando estudamos o Estado Novo?


Mais um pouco e sente saudades da PIDE e defende que se retire o direito de voto às mulheres…
E depois, ainda tem o descaramento de perguntar se as mulheres de hoje são felizes! Mas não são as mulheres um ser humano, dotadas de liberdade de escolha? Não são as mulheres, como ser humano que são, todas diferentes? Decerto que as mães e donas de uma casa que saem para trabalhar durante a semana lhe respondem que sim, que sentem felizes, que sentem completas e realizadas. Do mesmo modo, que as que escolhem ficar em casa lhe respondem que sim, que são felizes, que se sentem completas e realizadas. E as que são solteiras e vivem felizes no T0. E as que não são mães e as que são.

Como é que ainda é possível um homem sentir-se chocado por uma mulher ambicionar ter um emprego, ou subir na carreira? É assim tão repugnante?
Será este o velho discurso que cheira a bafio e peúgas húmidas que defende que cada ser humano deve seguir a sua natureza? Que a única ambição da mulher é ser “mãe”? E “cuidar do marido”, seja lá o que isso signifique? Já agora, porque não defende que nos devemos reger apenas pelas tarefas que nos eram destinadas na Pré-História? É que se seguirmos por aí, acho que mais valia este “sôtor” levantar o rabinho da cadeira e ir caçar mamutes…

A conversa já vai longa e ainda há muito a dizer. No fundo, tenho pena deste homem, e dos que seguem esta mentalidade atrofiada e retorcida. São a prova de que mesmo na sociedade ocidental ainda há um longo caminho a percorrer para que homens e mulheres sejam vistos como iguais.
Só espero que este artigo levante mais polémica que a mudança de cara da “Bridget Jones” ou as curvas da Athayde, porque palavras daquelas, são perigosas, e esquecemo-nos com facilidade que a mulher não é julgada apenas pelos fundamentalistas islâmicos. Pelos vistos ainda temos que queimar muito sutiã para que seja inadmissível ler daquilo num órgão de comunicação social.





sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"Orgulho Asteca", Gary Jennings

Mesmo passado meses depois de lido, é um livro que continua comigo. Orgulho Asteca é marcante. É um livro que, afortunadamente vale o que vale tanto como documento daquela civilização, como também pelo seu protagonista. É memorável!
É daqueles livros tão bons que apetece impingi-lo a toda a gente e nem sei muito bem como opinar sobre ele, já que não quero dizer demais. Mas ao mesmo tempo tenho tanto para dizer sobre ele!
Lê-lo foi uma verdadeira lição da História e da organização social daquele povo – e outros que o rodeavam. Não foi por acaso que Gary Jennings passou 12 anos no México para aprofundar os conhecimentos sobre a cultura asteca. Conseguiu mostrar várias facetas da sociedade, principalmente através da história de vida de Mixtli, que passou de aprendiz/estudante a soldado e daí a mercador, com uma paixão pela arte de escrever - para este povo escrever era uma arte bem física.
Mixtli é um protagonista com uma vida mirabolante e bastante comovente. Por estranho que possa parecer tanto me fez sentir angustiada ou chocada, como me fez sorrir e esforçar para não rir à gargalhada.
No livro, Mixtli relata a sua história a padres jesuítas que são destacados pelo imperador Carlos de Espanha a transecrevê-la para que sua majestade possa conhecer melhor os astecas. Temos também acesso às cartas exasperadas que o Bispo, Juan de Zumárraga, envia juntamente com o relato. As reacções dos jesuítas perante o que ouvem e a sua indignação pelo que são obrigados a transcrever ou quando Mixtli compara a religião cristã e o catolicismo à religião seguida pelos astecas são momentos bem cómicos...
Foi uma experiência de leitura fantástica. Emocionei-me quando a vida de Mixtli toma um lado trágico, mas fiquei também chocada pelo que relata – e pelo que fez - ,mas não conseguiria nunca por o livro de lado. Tem passagens bastantes chocantes, principalmente para quem não espera que se aborde o canibalismo, e que só aguardava mutilações e sofrimento para o segundo volume, quando lá chegassem os espanhóis. Brrr!
No entanto, o que eu quero realmente dizer/escrever é: leiam-no! Aliás, devorem-no! É muito bom.
 
 
 
 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

"A Ignorância", Milan Kundera


“A Ignorância” é de Milan Kundera: apetece apenas sugerir “leiam-no!” porque, em poucas páginas, tem tanto para nos ensinar…
Neste, chamou-me a atenção o fatalismo; como é possível que se cruzem conhecidos com conhecidos em comum e memórias completamente diferentes? É também sobre a memória. Uma mulher, Irena, cruza-se no aeroporto com uma antiga paixoneta, Josef. O homem para não a magoar finge reconhecê-la, mas não faz a mínima ideia de quem ela é/era.
É também um livro sobre a emigração forçada, por motivos políticos, e o regresso ao país a que, no fundo, se deixou de pertencer. E sobre muito mais.
 Quatro estrelas pelos ensinamentos!

Já o leram? O que acharam?
Boas leituras!



Curiosamente, o estilo de escrita lembra-me o de Murakami, ou vice-versa, pelo que lemos apenas o que é essencial nos seus romances, sem “distracções” (a dita “palha”, chamemos-lhe assim), e também pela forma subtil como introduzem “personagens-espelho” nos romances, personagens que reflectem outras, ou são os opostos de outras. Outro ponto em comum é a passagem que fazem para outras obras, sejam musicais ou literárias. Se em Murakami temos facilmente uma música que serve de ponte entre personagens - “Norwegian Wood” de Beatles -, ou abre caminho para outro mundo - como a Sinfonieeta de Janacek, em “1q84”-, em Kundera temos livros. Temos “Anna Karenina”, em “A Insustentável Leveza do Ser”, livro preferido da protagonista, e aqui, em “Ignorancia”, é o mito de Ulisses, que regressa a casa passados 20 anos, que marca o compasso à história. Muito interessante, de facto…

De volta a casa

Mais uma vez fiz um intervalo nas publicações deste blog. Desta vez deveu-se ao tempo no emprego - e à preguicite aguda de que sofro nas folgas.
Enquanto não estive por aqui, felizmente consegui manter a leitura em dia, e, portanto, nos próximos tempos vou colocando por aqui a opinião dos livros que fui lendo.
Como já devem ter reparado, o Voyage também vai ter uma leve mudança de visual, devido até à intenção de colocar outros conteúdos para além da minha humilde opinião dos livrinhos que leio.
Como também já podem ter reparado, desisti da TBR Jar... Não deu resultado. Gosto demasiado de ler o que me apetece na altura. Ler por sorteio lembrou-me, até, aqueles tempos de escola em que nos obrigavam/sugeriam a leitura de determinados livros. É tão aborrecido ler por obrigação...
Espero que tenham mantido as vossas leituras em dia e os vosso blogues actualizados. Por aqui, vou também manter o Voyage.
Bem-vindos a bordo de novo!


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Entrevista a Nuno Ferreira


Pela Chiado Editora chega  até nós agora "Espada que Sangra", um livro de fantasia épica de Nuno Ferreira.
Aqui esta viajante de letras foi espicaçada pela S pinelli e entrevistou o escritor para podermos conhecer um pouquinho mais sobre o livro - e quem está por detrás da cortina.
Para ler a entrevista basta o vosso clique aqui.
Para ler um excerto de "Espada que Sangra" basta outro aqui (uma ideia bastante boa para apresentar o romance, deixem que diga).
Boas leituras!


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

De tartes e outros bolinhos

Entre os livros que lemos há, acima de tudo, bons momentos para partilhar.
O meu Huguinho teve a ideia mirabolante de aproveitar o resto do recheio de uma tarte. Do recheio de tarte chegámos a bolinhos de cacau e bolacha deliciosos!

Cliquem aqui para espreitar o resultado:
 
http://hmccorreia.blogspot.pt/2014/02/miminhos-de-chocolate.html
(resultado acima de tudo, de bons momentos partilhados com a pessoa mais importante do mundo)
 
E vocês, já inventaram receitas? Receitas com história?

Boas leituras! (e bons momentos!)